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Por Roberta Campos •
17 julho 2018

Caminho da coragem


Quem me conhece sabe que gosto de uma aventura. Mas se eu soubesse antes tudo que teria que passar pra fazer aquela trilha, nunca aceitaria sair do conforto do hotel naquele dia. E teria perdido um dos melhores momentos das minhas férias...

Eram nove da manhã e tínhamos pela frente 40 quilômetros de estrada até a Cachoeira dos Dragões, em Pirenópolis, Goiás. Os 25 km iniciais foram tranquilos no asfalto, mas os outros 15 km foram alternados em uma estrada de terra ora ruim, ora péssima. Era comum ver no trajeto placas dizendo: “Persista!”, “Você já está chegando!”.

Até que finalmente chegamos à propriedade que pertence a um Mosteiro Budista. Uma senhora veio nos dar as instruções da trilha de 4,5 km com oito cachoeiras. Entre as orientações, a que mais me chamou a atenção foi sobre os cuidados com as cobras que viviam em abundância no local. Oi???? Eu sei que vou para o meio do mato, que lá tem a possibilidade de encontrar cobras (que graças a Deus nunca encontrei), mas ninguém tinha me falado dessa facilidade de ver esse bicho na área.

Pela primeira vez, me peguei ouvindo alguns alertas como “se ela estiver passando pela trilha, pare um pouco e deixe ir embora... se ela estiver enrolada é que vai dar o bote em algum animalzinho. Pare e vá dando passos lentos para trás”. A naturalidade da senhora em tratar do assunto era proporcional ao medo que ia crescendo dentro de mim. Nunca me interessei em saber qual cobra é a mais venenosa e o que fazer se encontrasse uma porque se depender de mim, isso nunca vai acontecer.

Pois eu estava ali, prestes a encarar uma trilha cercada dos meus maiores medos. Tão distante da civilização que era impossível desistir. Não sabia se era melhor seguir na frente ou atrás do meu marido. A todo instante eu antecipava aquele encontro que poderia acontecer a qualquer momento. O medo me paralisou, me fez implorar para voltarmos pro carro e irmos pra piscina do hotel. Mas meu marido bateu o pé e eu não tive outra escolha senão começar a rezar baixinho pedindo proteção e olhar atentamente para a minha volta, pro presente, pro agora.

Cada cachoeira tem um nome relacionado com a mitologia dos dragões e traz histórias sobre a capacidade de transformação que cada um pode ter ao passar pelas dificuldades impostas pela vida. Dentro do treinamento Zen, seria como o peixe que entra no rio e, ao passar por cachoeiras, vai evoluindo, crescendo até se transformar num dragão.

A cada 500 metros de trilha, tinha uma cachoeira, linda! Parávamos para nos banhar, tirar fotos e admirar. Mesmo distraída com tanta energia boa, às vezes, me pegava pensando: só faltam cinco, só faltam quatro cachoeiras. Era o medo das cobras tentando atrapalhar meu presente, minha contemplação.

A terceira cachoeira me surpreendeu: a Pérola do Dragão é uma queda d´água em um pequeno poço que mais parecia uma banheira. Me esbaldei naquele lugar. Nadei, boiei, tirei fotos, senti uma energia incrível e sobretudo agradeci por estar ali sentindo e vivenciando aquele local abençoado.

Seguimos a trilha. O olhar atento. O susto era inevitável a cada lagartinho que se mexia no mato. Chegamos a quinta cachoeira e quando estávamos tomando sol nas pedras, um grupo de turistas veio nos perguntar se tínhamos passado pela terceira cachoeira. Eles saíram de lá porque uma cobra decidiu tomar sol nas pedras bem ao lado do grupo. Não preciso nem dizer que o fato me deixou ainda mais em alerta e acabou de vez com minha tranquilidade. Eu pensava a todo instante: podia ter sido eu!

Passamos por outras cachoeiras lindíssimas e comecei a refletir em como o medo nos domina na vida. É claro que esse sentimento nos ajuda a ficarmos vivos, mas temos que dar limites a ele. E exatamente em um templo de meditação budista eu estava tendo uma aula com a natureza. Temos que estar atentos a nossa ação, o tempo todo. Mas não podemos deixar a nossa mente nos paralisar diante dos medos e dos percalços da vida.

Entrei em todas as cachoeiras. A última é um troféu. Um poço que mais parece um ofurô no alto da montanha em uma das paisagens mais fantásticas da minha vida. Ali, relaxei por alguns instantes. Tinha mais um quilometro de caminhada para encerrar a trilha e na minha cabeça o mal poderia aparecer exatamente nesse momento de distração. Eu tinha certeza que ainda ia encontrar uma cobrinha amiga pela frente.

Fiz o trajeto rezando e observando até passar a porteira final da trilha. A partir dali, comecei a agradecer. Não perdi meu medo de cobras, longe disso. Mas aprendi que temos que enfrentar o que nos assusta, paralisa. O medo não pode ser a pedra que te impede de seguir no trajeto que você traçou pra sua vida. Você tem que transformá-lo em um aliado que te permite estar sempre atento.

Fui embora me sentindo mais corajosa e com uma felicidade sem fim de ter conhecido dois lugares lindos naquele dia: o complexo de cachoeiras e mais um pouquinho do meu eu interior.
A ilustração deste texto foi criada por Jânio Garcia - ilustrador 2D e professor de Arte Digital da Pandora Escola de Arte - e pelo aluno do curso de Ilustração de Mercado e ilustrador 2D, Danilo Freitas. Para conhecer a escola Pandora, clique AQUI. Já o portfólio do Jânio Garcia pode ser visto AQUI e o portfólio do Danilo Freitas está disponível NESTE link.

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