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Relatos de carona

Nós colocamos a mochila nas costas, pegamos um ônibus no centro da cidade e descemos perto da Freeway. Caminhamos um pouco até chegar na estrada e, ao entrar nela, eu já senti o poder que ela exercia sobre mim. Eu queria seguir caminhando por ela, mas o sol estava quente e o objetivo era outro: conseguir carona. Levantamos os dedos, confiantes. Mas a tão esperada carona levou algum tempo para aparecer. Quando já estávamos cansados um caminhão parou, entramos e passamos um dia inteiro na estrada com aquele caminhoneiro gaúcho que ia até o Rio de Janeiro, parava a cada duas horas, fez um arroz carreiteiro delicioso e nos deixou na entrada de Florianópolis. Essa foi minha primeira experiência pegando carona na beira da estrada, em 2008. São mais de 7 anos de caronas, sendo que os últimos três me utilizando desse meio de transporte para viajar por 15 países de dois continentes.
Cruzando o Parque Ecológico do Taim, no sul do RS, a bordo de um caminhão./ Foto: Arquivo pessoal

Nesse tempo já peguei carona com as mais diferentes pessoas, em carros grandes e com ar condicionado, em carros pequenos (com as mochilas apertadas no colo), na caçamba de caminhonetes com o vento batendo forte no rosto e querendo levar o chapéu, com caminhoneiro que não dormia há 36 horas, cruzei as montanhas bolivianas levantando a lona da caçamba do caminhão para poder ver, maravilhada, as montanhas. Pego carona em Florianópolis sempre que tenho que me locomover dentro da ilha. Viajei por vários quilômetros em uma BMW dos anos 90, na Sérvia, com um comediante subcelebridade do YouTube, nascido nos Estados Unidos mas descendente de Yugoslavos, que ficava fazendo vídeos o tempo todo. No sul do Rio Grande do Sul um caminhão queimou borracha para conseguir parar. Na Europa dividimos uma Van por três dias e duas noites com um suíço filho de um marroquino. Fomos de Málaga, na Espanha, até Berna, na Suíça, compartilhando histórias, aprendendo um pouquinho de árabe, francês e alemão com ele e ensinando algumas palavras em português. Ao chegar no destino ele ainda nos levou até sua casa, onde tomamos banho, usamos a internet para procurar hospedagem e comemos uma refeição preparada por ele.

Para não dizer que só falei das flores, caronar tem seus problemas, principalmente se você for mulher. Eu, felizmente (ou infelizmente, depende do ponto de vista), nunca precisei viajar de carona sozinha, sempre encontrei companheiros dispostos a se aventurar assim comigo. Mas vamos combinar que é um saco que eu seja respeitada só porque tem um homem do meu lado que será visto como meu "dono", o que me torna "intocável". E, mesmo assim, não é o suficiente: durante um trecho no chaco paraguaio, nos vimos em uma situação em que tivemos que dividir a cabine do caminhão com o caminhoneiro pela noite, sair era impossível porque os mosquitos mutantes gigantes do lugar eram sanguinários e não viam sangue doce há algum tempo, e o climatizador do caminhão estava estragado. O motorista (que tinha bebido um fardo de latinhas de cerveja) dormiu na cama de cima e eu dividi com meu companheiro a de baixo. No meio da noite comecei a sentir uma mão encostando no meu braço. Era o caminhoneiro, esticando o braço para me tocar. Eu dei um tapa na mão dele, xinguei em espanhol e acordei meu companheiro, pedindo para trocar de lugar com ele. Os toques pararam por aí, no outro dia seguimos viagem e tudo ficou bem, era só um cara bêbado que não compreendeu muito bem essa história de caroneiros.

Esticando o dedão em Berna, na Suíça. Depois de 40 minutos, um senhor parou e com ele fomos até Zurique. Ele ainda nos deixou na porta do prédio de quem ía nos hospedar na cidade./Foto: Arquivo pessoal.

Muitos dizem que é loucura, que é arriscado, que é inseguro, que o mundo é um lugar feio, cheio de pessoas horríveis que estão por aí à procura de pessoas aleatórias para fazer mal. Não que esse tipo de gente não exista (mais uma vez, se você que lê isso é uma mulher sabe que as chances de um estranho te machucar são bem altas), mas o medo é uma arma bastante poderosa. Pela minha experiência nas estradas eu digo que ainda existem muito mais pessoas generosas, dispostas a ajudar e dividir seu tempo e um pouquinho da sua vida com desconhecidos, do que o contrário. Caronando você ficará cansada, enfrentará dias de sol na cabeça por horas, ou chuva às vezes, vão passar horas até que alguém pare naquele lugar abandonado por todos os deuses onde só passa um carro a cada 3 horas. Mas você também terá experiências incríveis, conhecerá pessoas que de outra forma talvez nunca entrariam no seu círculo de amizades. Receberá convites para se hospedar, comer, visitar lugares. Aprenderá muito, e talvez também ensine um pouco. 

Não escrevo isso querendo dizer que todos devem viajar de carona. Tem que querer muito fazer isso, estar aberta às possibilidades, seguir sempre a intuição, e não são todas as pessoas que já estão preparadas para isso. É mais como uma declaração de amor à essa forma tão romântica e romantizada de viajar. Vocẽ pode assistir todos os filmes, ler todos os livros sobre o assunto, conversar com várias pessoas que pedem carona em postos da gasolina, beira de estrada, pedágios, redes sociais. Mas a sua experiência sempre vai ser única, e uma carona nunca será igual à outra. E por mais que te digam que você não pode/não deveria, siga seu coração, sempre.

(Enquanto escrevo esse relato, estou escutando "Mama", da banda potiguar Far From Alaska. A letra: "Mama told me not to talk to strangers when I'm out of home/'Cause we live in a universe where no one can really know a soul". Achei conveniente.)

10 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que aventura hein! Eu teria medo, muito medo de pegar carona com estranhos, sendo mulher corremos mais riscos. Acho perigoso até estando acompanhada que dirá sozinha. Mas conhecer tantos lugares deve ser maravilhoso...
    bjs
    www.pilateandososnhos.com

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  3. Conhecer tantos lugares deve ser ótimo, mas eu teria medo...rs

    bjs

    Blog À Flor da Pele
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    1. Também adoro conhecer novos lugares, Nanda :)

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  4. Oi Hida e Karine!
    uau, quantas aventuras!!! Eu não tenho coragem de pegar carona, justamente por ser mulher como você comentou. Mas que bom que deu tudo certo, deve ter sido emocionante.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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    1. Oi, Sora! Emocionante mesmo ;) Obrigada pela visita.

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  5. Oi gente! Obrigada pelo retorno, muito bom saber que vocês estão gostando dos textos! :)
    Tem várias mulheres caronando por aí, sozinhas, acompanhadas, algumas até com crianças, histórias lindas!
    Beijos pra vocês!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Estou aqui recém operada (fiz uma cirurgia na quinta e recebi alta ontem), sentindo um pouco de dores, resolvi visitar alguns blogs amigos. Confesso que quando vi o texto grande eu ia deixar pra ler mais tarde, porque estou meio chatinha aqui com meus pontos. Mas resolvi ler tudo agora e: MEU DEUS! Que relato incrível, que história viva. Deve ser maravilhoso mochilar por aí. Eu não teria coragem hahahaha sou tão medrosa pra essas coisas, sabe? Mas deve ser mesmo uma riqueza que só deve ser sentida pela experiência mesmo. Amei a história. Amo essas suas reportagens e relatos de pessoais reais e intensas, Hida. Parabéns mais uma vez por ter um blog de conteúdo tão bom, continue assim, você acrescenta muito pra gente <3

    www.vodkaescarpin.com.br

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